Quando a comunicação falha: a lição de telecom

Há 25 anos, o mundo assistia a uma das maiores tragédias da história recente. Mas existe uma história sobre aquele 11 de setembro de 2001…

Há 25 anos, o mundo assistia a uma das maiores tragédias da história recente. Mas existe uma história sobre aquele 11 de setembro de 2001 que é pouco lembrada: a história das telecomunicações.

Naquela manhã, enquanto milhares de pessoas tentavam compreender o que estava acontecendo em Nova York, uma infraestrutura invisível começou a mostrar seus limites.

Não era apenas uma questão de telefones congestionados.

Era uma questão muito maior:

sistemas que existiam para comunicar não conseguiam, necessariamente, comunicar entre si.

Polícia, bombeiros, serviços médicos e diferentes órgãos de emergência utilizavam sistemas de rádio distintos. Em vários casos, frequências e estruturas não eram interoperáveis. Paralelamente, redes de telefonia fixa e móvel ficaram sobrecarregadas pelo enorme volume de chamadas.

A Comissão que posteriormente investigou os acontecimentos identificou sérios problemas na troca de informações entre as equipes.

Havia situações em que uma agência possuía uma informação relevante, mas outra simplesmente não tinha como recebê-la em tempo real.

Não porque alguém não quisesse transmiti-la.

Mas porque a tecnologia não permitia que a informação fluísse adequadamente.

Telecomunicações também são infraestrutura crítica

Quando pensamos em telecom, é muito fácil pensar em:

internet,
telefone,
WhatsApp,
PABX,
5G,
fibra óptica.

Mas existe uma dimensão muito mais profunda.

Telecomunicações são a infraestrutura que permite que decisões aconteçam.

Em uma empresa, alguns minutos de indisponibilidade podem significar uma venda perdida.

Em uma central de atendimento, podem significar centenas de clientes esperando.

Em um hospital, podem significar dificuldade na coordenação de uma equipe.

Em uma situação de emergência, comunicação pode literalmente fazer parte do processo de salvar vidas.

O 11 de setembro tornou essa realidade dramaticamente evidente.

E aquele dia ajudou a mudar o setor

Os problemas de comunicação identificados naquele episódio alimentaram uma discussão que duraria anos nos Estados Unidos: era necessário criar uma estrutura interoperável, resiliente e preparada especificamente para comunicações de segurança pública.

O relatório da Comissão do 11 de Setembro, publicado em 2004, recomendou avanços nessa direção.

Em 2012, o Congresso norte-americano criou a First Responder Network Authority — FirstNet, destinando espectro e recursos para a construção de uma rede nacional de banda larga voltada aos primeiros respondedores.

Posteriormente, em 2017, foi firmada uma parceria de 25 anos com a AT&T para implantação e operação dessa infraestrutura.

Ou seja:

uma das maiores transformações da comunicação de emergência nos Estados Unidos nasceu, em parte, da constatação de que possuir tecnologia não basta.

Ela precisa funcionar quando tudo ao redor deixa de funcionar.

Essa talvez seja a maior lição para quem trabalha com telecom

Nós costumamos medir uma rede pela situação normal.

Latência.

Capacidade.

Qualidade.

Disponibilidade.

Número de canais.

Mas redes críticas deveriam ser pensadas a partir de outra pergunta:

“O que acontece quando alguma coisa dá errado?”

Existe rota alternativa?

Existe redundância?

Os sistemas conseguem conversar entre si?

Há capacidade para absorver um pico inesperado?

Se um fornecedor cair, existe outro caminho?

Se uma região ficar indisponível, a operação continua?

Porque redundância parece desperdício…

até o dia em que deixa de ser.

Interoperabilidade parece detalhe técnico…

até o momento em que dois sistemas precisam conversar e não conseguem.

Capacidade excedente parece dinheiro parado…

até o minuto em que milhares de pessoas tentam utilizar a mesma infraestrutura simultaneamente.

25 anos depois

A tecnologia mudou absurdamente desde 2001.

Saímos de uma realidade predominantemente baseada em voz para um mundo de comunicação IP, cloud, fibra, LTE, 5G, APIs, inteligência artificial e múltiplos canais digitais.

Mas uma verdade continua exatamente igual:

Uma comunicação só demonstra realmente sua força quando é colocada sob pressão.

Talvez essa seja uma das reflexões mais importantes que o 11 de setembro também deixou para o mercado de telecomunicações.

Por trás de cabos, fibras, antenas, servidores, rotas e protocolos existem pessoas tentando se comunicar.

E, algumas vezes, garantir que uma mensagem chegue ao outro lado pode ser muito mais importante do que imaginamos.